O "vício" em comida explica a explosão da obesidade?

Nanci Helmich

Há muito que a obesidade é atribuída à falta de força de vontade, a comer em excesso, à genética e à falta de exercícios. Cada vez mais, porém, os
cientistas encontram sinais que sugerem que pode haver um fator adicional: o vício em comida.

Nas noites de segunda e terça-feira (10/7), dezenas dos principais
pesquisadores do país em obesidade, nutrição e vício discutiram se a comida tinha propriedades viciadoras para algumas pessoas. Eles estavam reunidos em New Haven, Connecticut, em um encontro patrocinado pelo Centro Rudd de Política Alimentar e Obesidade da Universidade de Yale.

"Há suficientes dados científicos sugerindo haver algo, então estamos
reunindo as principais autoridades para decidir se o vício em comida é real e quais são os fatores psicológicos e biológicos subjacentes" , diz Kelly Brownell, diretor do Centro Rudd.

"É surpreendente que nosso campo tenha negligenciado este conceito por tanto tempo", diz ele. "A sociedade culpa as pessoas pela própria obesidade e fechou-se para outras explicações."

A idéia do vício em comida vem de estudos em animais e humanos, inclusive de pesquisas de imagens do cérebro em humanos, diz Mark Gold, diretor da medicina do vício no Instituto Cerebral McKnight da Universidade da Flórida, co-organizador do encontro.

Em ambiente médico, "avaliamos as pessoas que estavam pesadas demais para deixar suas poltronas e grandes demais para passar pela porta", disse ele. "Elas não comem para sobreviver. Amam comer e passam o dia planejando suas próximas escolhas de comida que encomendarão. "

A psiquiatra Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional e Abuso de Drogas, palestrante na reunião, diz que a pesquisa nessa área é complicada, mas os problemas de peso da maior parte das pessoas não são causados pelo vício em comida.

Alguns estudos se concentram na dopamina, um neurotransmissor do cérebro associado com o prazer e com a recompensa. "O mau funcionamento do sistema de dopamina do cérebro pode deixar algumas pessoas mais vulneráveis a comer compulsivamente, o que pode levar à obesidade mórbida", disse Volkow. Ela fez pesquisas inovadoras na área, no Laboratório Nacional do Departamento de Energia em Brookhaven.

Para alguns compulsivos, a vontade de comer é tão intensa que supera a
motivação de se envolver em outras atividades recompensadoras e dificulta o exercício do autocontrole, diz ela. Isso é similar à compulsão que uma
pessoa viciada sente para tomar drogas, diz ela. "Quando isso ocorre, o comportamento de comer compulsivamente pode interferir no bem estar e na saúde."

Há, entretanto, muitas diferenças entre o vício em drogas e a intensa
compulsão por comida, disse ela. A comida é necessária para a sobrevivência, e comer é um comportamento complexo, envolvendo muitos hormônios e sistemas diferentes do corpo, não só o sistema de prazer e recompensa, diz Volkow. "Há múltiplos fatores que determinam quanto a pessoa pode comer e o que come."

Ela não acredita que a maior parte dos casos de obesidade possa ser atribuída ao mau funcionamento dos sistemas de dopamina do cérebro. Há
muitas causas para o excesso de peso, inclusive hábitos alimentares pouco saudáveis, falta de exercícios, vulnerabilidade genética e estresse, disse ela.

Apesar de não haver uma definição oficial do vício em comida, Gold define o problema de forma muito parecida à dependência de outra substância: "Comer demais apesar das conseqüências, mesmo terríveis à saúde; preocupar-se com comida e com o preparo das refeições; tentar e fracassar em diminuir a ingestão de comida; sentir-se culpado de comer e de comer demais."

Ele acredita que alguns alimentos têm maior poder de viciar do que outros. "Talvez as rosquinhas com alto teor de gordura e açúcar causem mais recompensa ao cérebro do que a sopa."

Outros ridicularizam a idéia de vício em comida. "Isso é uma banalização do termo 'vício'", diz Rick Berman, diretor executivo do Centro de Liberdade do Consumidor, grupo financiado pela indústria de restaurante e alimentos. "O termo está sendo usado de forma abusiva. As pessoas não estão assaltando lojas de conveniência para agarrar uns bolinhos. Muitas pessoas amam cheesecake e comeriam a sobremesa toda vez que fosse oferecida, mas eu não chamaria a isso de vício", diz ele. "A questão aqui é a intensidade dos desejos das pessoas".

Tradução: Deborah Weinberg

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