Os estudantes e a condição proletária


As manifestações de 1968 devem ser compreendidas à luz da universalização e esgotamento do modelo fordista

Ruy Braga

Efeméride ligada ao principal acontecimento social da França no pós-Segunda Guerra Mundial não poderia passar sem controvérsia… E coube a ninguém menos do que Nicolas Sarkozy reavivar durante seu último comício eleitoral, em 29 de abril de 2007, a polêmica ao exortar os franceses a “liquidar a herança de Maio de 68″. O ataque do então candidato e atual presidente francês ao Maio de 1968 é emblemático: coroou uma campanha eleitoral centrada no slogan “Trabalhar mais para ganhar mais!” - celebração política da produção neoliberal num momento de aumento da concorrência entre os próprios trabalhadores.

Evidentemente, não é de hoje que o Maio de 1968 é atacado. Principalmente por aqueles que, tendo apoiado ou participado do movimento à época, capitularam à onda conservadora dos 1970-1980 e formaram o que Serge Audier chamou de “pensamento anti-68 plural”. Bernard-Henri Lévy, André Glucksmann, Patrick Rotman, Hervé Hamon, Laurent Joffrin… Muitos são aqueles que, disputando um certo espólio “sessentaoitista”, sentiram a necessidade de “esterilizar” os acontecimentos. Não raro, esse grupo de semi-arrependidos obtém êxito nessa empreitada ao enclausurar a rebelião estudantil no terreno quase anódino da crítica dos valores sociais.

Conforme esse grupo, o Maio de 1968 teria se configurado numa tentativa romântica de jovens idealistas de classe média de modernizar as relações sociais que então vigoravam na sociedade francesa por meio da contestação da autoridade paterna coroada pelo Estado. Ou seja, no limite, as demandas presentes no Maio de 1968 teriam aberto as portas da sociedade francesa para a modernização capitalista dos anos 1980-1990 e cujo coroamento foi o próprio neoliberalismo - primeiro com os sucessivos governos de François Mitterrand e depois com a unificação européia.Trata-se, evidentemente, de um ardil cujo sentido consiste em recalcar o trauma representado pela aliança operário-estudantil na maior greve geral da história européia que se seguiu ao 10 de Maio - a chamada “Noite das Barricadas”. Contudo, o engodo montado contra a aliança operário-estudantil - forjada, diga-se de passagem, à revelia da vontade das direções sindicais tradicionais - atingiu um outro alvo: os vínculos sociais dos novos estudantes com a velha condição proletária.

Fordismo e elevação das condições de vida
Após o final da Segunda Guerra Mundial e durante aproximadamente 25 anos (1948-1973), o mundo capitalista ocidental, tendo os Estados Unidos à frente, viveu um período marcado por forte crescimento econômico, com baixa inflação e expansão do consumo de massas, conhecido tradicionalmente pelo nome de “fordismo”. Ele representou um momento da história capitalista no qual um certo mecanismo de acumulação baseado na organização e no rígido controle do trabalho estava associado a aumentos salariais que garantiram o acesso da classe trabalhadora aos bens de consumo duráveis - tais como carro, casa própria, televisão, geladeira - e à expansão dos serviços públicos gratuitos - saúde, educação.

Os ganhos de produtividade que eram alcançados nas fábricas serviam de base para os aumentos salariais dos trabalhadores e ajudaram a garantir o desenvolvimento dos serviços públicos. Um surto de progresso material relacionado ao fordismo foi criado e o progresso econômico apareceu para as diferentes sociedades nacionais como algo quase “natural”. Aparentemente, o capitalismo ocidental havia superado definitivamente as crises de superacumulação de capital.

Mesmo observando que o progresso nos países capitalistas desenvolvidos nunca alcançou todos os setores assalariados - na verdade, limitava-se à fração branca, nacional, masculina e sindicalizada da força de trabalho - e que os países periféricos viviam uma situação radicalmente diferente - não nos esqueçamos que o Brasil e a América Latina passavam, nesse período, pela experiência das ditaduras militares apoiadas pelo governo estadunidense -, é inegável que o fordismo representou um período de crescimento econômico com relativa distribuição de riqueza social que beneficiou os trabalhadores de diferentes países.

A soma da elevação das condições de vida da massa trabalhadora com o reconhecimento da classe operária como um agente legítimo do jogo político foi essencial para a relativa integração econômica e política dos grupos operários, assim como suas direções sindicais ao Estado burguês. Na Europa ocidental, uma autêntica “oposição de compadres” organizada em torno da política reformista dos Partidos Comunistas oficiais com o conseqüente bloqueio do desenvolvimento do movimento operário e social consolidou-se como uma espécie de “padrão”. Ocorre que as condições sociais inerentes à acumulação fordista promoveram a necessidade crescente de força de trabalho especializada no plano tecnocientífico tanto na indústria quanto no aparelho de Estado. Além disso, o sucesso econômico das empresas fordistas associado ao incremento dos serviços públicos estatais e semi-estatais fez com que as classes médias também progredissem numericamente, acabando por estimular a procura por novos estudos superiores.

Em resumo, por meio da introdução massiva de trabalho intelectual na indústria e da diversificação dos serviços públicos estatais e semi-estatais, os diferentes modelos de desenvolvimento nacionais fordistas estimularam a aceleração da inovação tecnológica o que redundou em uma ampla integração do trabalho complexo no processo de produção. Como desdobramento, os grupos universitários estadunidenses e europeus ocidentais foram largamente ampliados, em um sistema educacional superior em franca expansão.

Radicalização do movimento estudantil
Nesse sentido, a “explosão” universitária funcionou como uma espécie de ferramenta do processo mais geral de transformação dos grupos intelectuais em trabalhadores assalariados aumentando, conseqüentemente, a massa e a qualificação do proletariado tradicional em países de capitalismo avançado.

Assim, torna-se fácil entender como em um intervalo relativamente curto de tempo de aproximadamente 25 anos, a universidade tradicional foi substituída por verdadeiras fábricas de produção de conhecimentos científicos, tendo como marca mais visível um aumento colossal do número de estudantes. Sinteticamente, podemos dizer que a explosão universitária experimentada durante o período em que vigeu o modelo de desenvolvimento fordista é fruto da combinação do alargamento simultâneo da oferta e da procura de força de trabalho intelectualmente qualificado com mudanças sociais relacionadas aos esforços individualizados por promoção social - tradicional nas classes médias, mas inusual entre as fileiras proletárias.

Com o avanço da escolarização, seguido da massificação do ensino universitário e da “proletarização” do trabalho intelectual, torna-se patente que o argumento utilizado pelos dirigentes dos PCs oficiais contra os estudantes rebeldes era essencialmente enganador. Tomados de surpresa, os sindicatos burocratizados e o movimento comunista oficial - já bastante abalados pelas denúncias dos “Crimes de Stálin” ocorridas durante o 20º Congresso do PCUS em 1956 - respondiam à pergunta “Afinal, quem são esses estudantes que se rebelam?” assim: “Os estudantes de hoje são nossos futuros patrões! Não levemos a sério o que estão dizendo!”

Na verdade, mesmo se considerarmos países como Estados Unidos e França, largamente beneficiados pelos frutos materiais do modelo de desenvolvimento dos anos 1950-1960, ainda assim seria perfeitamente possível prever que os trabalhadores iriam se revoltar contra as bases do “progresso” fordista, isto é, a intensificação do trabalho, a aceleração das cadências, a limitação da liberdade de greve, a crescente alienação como produtores e como consumidores… A surpresa que abalou a chamada “velha esquerda” ficou naturalmente por conta do novo protagonismo estudantil profundamente traspassado pela principal luta no mundo na década de 1960: a luta contra a Guerra do Vietnã.

De fato, a radicalização do movimento estudantil ocorreu no contexto da radicalização das lutas anti-imperialistas e anticolonialistas. Isto é, questões até então não-centrais para o movimento operário-sindical dominado pela “velha esquerda” comunista oficial passaram à frente das políticas de pacificação social estruturadas no fordismo. Na verdade, as lutas anti-imperialistas funcionaram como uma espécie de válvula de escape por meio da qual contradições sociais latentes e manifestações de descontentamento social com os partidos operários tradicionais puderam emergir e questionar a relação da direção operária tradicional com o Estado burguês.

Nesses termos, a luta estudantil teve como principal fonte política de revolta a associação entre um profundo descontentamento com as bases econômicas da sociedade fordista e um não menos profundo descontentamento de amplos setores da classe operária com a sua própria direção política tradicional. Ou seja, a onda de revoltas estudantis e operárias de 1968 deve ser compreendida à luz da universalização e esgotamento do compromisso fordista que sustentou o modelo e desenvolvimento capitalista nas décadas de 1950 e 1960, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa ocidental.

Ruy Braga é professor do Departamento de Sociologia da USP e Diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic)

“CULT”

Comentários